Facebook Terça | 23 Outubro 2018
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Batalha do Ameixial

Contexto político anterior á Batalha do Ameixial:

Nos sessenta anos que decorreram de 1580 a 1640, o governo dos Filipes foi progressivamente sendo considerado como um período de reis estranhos.

Este sentimento acentuou-se a partir de 1621 com o reinado de Filipe III, face ao aumento verificado nos impostos e ao recrutamento de militares portugueses para servirem com o exército espanhol, nomeadamente na guerra da Catalunha.

A população portuguesa tinha também, e com fundamento, a percepção de que o referido aumento de impostos não se destinava a melhorar as condições de vida em Portugal, mas sim a financiar projectos espanhóis, nomeadamente as campanhas militares na Europa e a sua expansão ultramarina.

Em face desta situação, o descontentamento em Portugal foi alastrando. Tendo a nobreza mais importante e de maior destaque sido o motor da Restauração. Esta eclodiu em 1 de Dezembro de 1640, tendo de imediato aderido a esta acção outros e variados estratos sociais, do alto clero às gentes mais humildes.

Esta adesão colectiva do povo português explica os sacrifícios humanos e materiais demonstrados nos anos seguintes na resistência militar, ao longo das fronteiras e no território ultramarino.

A aclamação de D. João IV verificou-se em 15 de Dezembro, no Terreiro do Paço em Lisboa. Seguidamente o novo monarca convocou as Cortes, que se iniciaram em Lisboa em 28 de Janeiro de 1641, com a participação do clero, da nobreza e do povo. Com estas Cortes permitiu-se o recrutamento de 20,000 infantes e 4,000 cavaleiros.

Os confrontos militares começaram em 1641, com escaramuças no Alto Minho, Beira Alta e sobretudo no sotavento Algarvio e no Alentejo.

Foi contudo em 26 de Maio de 1644 que se verificou a primeira batalha, a Batalha do Montijo. Travada em Espanha, perto da Badajoz, esta Batalha traduziu-se numa retumbante vitória para Portugal.

Neste período de grande incerteza e aflição em relação ao futuro, em face da mais que provável invasão do exército espanhol, D. João IV, numa cerimónia realizada em 1646 na Igreja de Vila Viçosa, consagra o povo português à Imaculada Conceição e proclama Nossa Senhora como rainha e padroeira de Portugal. Não mais os reis de Portugal voltariam a colocar a coroa real na cabeça, pois a partir de então esse direito foi conferido à imagem de Nossa Senhora.

D. João IV morre em Novembro de 1656, tendo confiado em testamento a regência do Reino a D. Luísa de Gusmão. Embora espanhola por nascimento, da região da Andaluzia, D. Luísa desde logo abraçou a causa do seu marido, tendo servido eficazmente a Restauração antes e depois da morte de D. João IV, procurando assegurar a independência de Portugal e a sobrevivência da Dinastia.

Em 15 de Novembro de 1656 fez-se o juramento do novo rei, D. Afonso VI, então com apenas 13 anos.

Com a morte de D. João IV, com a recuperação da Catalunha em 1652 e com a amenização militar noutras frentes, nomeadamente com o fim da “Guerra dos Trinta Anos” em 1648, Madrid resolveu concentrar as suas forças na recuperação de Portugal.

Em Janeiro de 1659 dá-se a Batalha das Linhas de Elvas, onde o exército português obtém nova vitória retumbante.

A regência de D. Luísa de Gusmão manteve-se até 23 de Junho de 1662, data em que D. Afonso VI, então com 19 anos, assume o poder em Portugal.

Em Abril de 1663 concentra-se o exército espanhol em Badajoz, comandado por D. João de Áustria, filho de Filipe IV, pronto para invadir Portugal. O exército espanhol era composto por 15,000 infantes, 6,500 cavaleiros, 5,000 carros com munições e mantimentos e 20 peças de artilharia. Tratava-se do maior exército que Espanha tinha reunido para invadir Portugal.


O desenrolar da Batalha:

O exército invasor seguiu para Évora, que tomou a 22 de Maio. Perante esta situação, o exército português, comandado por D. Sancho Manuel, dirigiu-se para Évora, a fim de provocar o combate.

O exército espanhol não aceitou contudo o desafio, decide evacuar Évora e opta por recuar em direcção à fronteira, para depois atingir Badajoz.

D. João de Áustria percebeu que dificilmente conseguiria deixar de dar batalha. Desta forma, o exército espanhol julgou ver no Ameixial uma posição que lhe seria favorável. Estava a 5 km de Estremoz.

D. João de Áustria toma então a decisão de colocar o seu exército em posição de batalha, colocando nomeadamente parte da sua artilharia em três montes aí existentes (Monte dos Ruivinos, Serra Murada e Serra da Granja).

O exército português, que avançava pela estrada vinda de Estremoz, deparou ao romper do dia com o exército espanhol instalado nestas posições defensivas. A Batalha do Ameixial, iniciou-se assim no início do dia 8 de Junho de 1663, com o ataque português ás posições espanholas.

O Conde de Vila Flor destacou Manuel Freire de Andrade com quinhentos homens de cavalaria e dois regimentos de infantaria, com o objectivo de desalojar os castelhanos do Monte dos Ruivinos, pois esta era das três colinas a primeira que se encontrava na sua frente.

Este ataque foi conduzido com grande valentia, o que obrigou os espanhóis a abandonarem uma posição que consideravam inexpugnável e a retirarem pelo outro lado da encosta, em direcção à Serra da Granja e à Serra Murada (Outeiro dos Ataques).

Nesse momento o exército português ocupava a Serra dos Ruivinos e a Serra da Caldeirinha. O Conde de Schomberg ordenou então que no alto de cada uma dessas duas colinas fossem colocadas cinco peças de artilharia, para protegerem as nossas forças.

O exército espanhol, composto por cerca de quatro mil carros manchegos, cada um com aproximadamente seis metros, puxados por mulas ou por bois, ocupava um gigantesco cortejo.

Este exército avançava a uma velocidade reduzida, pela “estrada estreita e profunda” vinda de Évora em direcção a Arronches, numa coluna de carros que se estendia por mais de 3 Km.

Para proteger esta coluna de carros e carruagens, D. João de Áustria mandou colocar a infantaria nos vértices da Serra da Granja e da Serra Murada, bem como quatro peças de artilharia em cada uma dessas colinas.

O grande objectivo de D. João de Áustria era contudo o de assegurar a retirada do seu exército para Arronches, pois entendia que aí o poderia reforçar significativamente.

Cerca das três da tarde, D. Luís de Meneses, Conde da Ericeira, que estava a dirigir o fogo de artilharia do Monte dos Ruivinos, notou que das oito peças de artilharia castelhana situadas nas Serras da Granja e da Murada, apenas quatro continuavam a disparar. Significava isto que o exército espanhol se ia retirando.

Em face desta situação, o exército português decide atacar, a meio da tarde, a Serra Murada (Outeiro dos Ataques), onde se entrincheirara D. João de Áustria, que considerava estar numa posição inexpugnável.

Esta Serra era defendida essencialmente pela infantaria espanhola. No ataque participaram quatro terços de infantaria portuguesa: Tristão da Cunha comandava o terço que atacou a Serra pelo lado direito; pela frente atacaram dois terços, comandados respectivamente por João Furtado e Francisco da Silva; pelo lado esquerdo Tomaz Hut, tenente–coronel inglês comandava outro terço, composto essencialmente por ingleses.

Os soldados portugueses tinham ordens de D. Luís de Meneses para não dispararem enquanto não atingissem o alto da Serra, pois o tiro dos inimigos sendo disparado do alto da Serra, perderia força e seria pouco certeiro.

Os três terços portugueses chegaram ao mesmo tempo ao cimo desta Serra, tendo então todas as suas armas disparado simultaneamente, o que muito surpreendeu e perturbou os castelhanos. Perante isto e apesar da valentia de D. João de Áustria, a infantaria espanhola acabou por abandonar a colina, deixando aí as quatro peças de artilharia.

Estas peças de artilharia foram de imediato utilizadas por D. Luís de Meneses, contra as posições espanholas. A infantaria espanhola em fuga reagrupou-se durante algum tempo na Serra da Espargueira, contiguidade da Serra Murada. Contudo, durou pouco tempo esta resistência, em face do continuado ataque dos terços portugueses vindos da Serra Murada. D. João de Áustria montou então a cavalo e retirou-se para Arronches.

As nossas forças tinham contudo ainda de conquistar as posições castelhanas da Serra da Granja, onde se encontrava infantaria e artilharia inimiga, bem como a coluna de carruagens e de cavalaria espanhola que atravessava o Vale dos Perdigais em direcção a Arronches.

Ocorreu então um choque violentíssimo entre os dois exércitos, com provas de coragem extrema de ambos os lados. Os portugueses desenvolveram em todos os seus ataques uma táctica oportuna e de grande bravura. Tendo durado várias horas, este ataque saldou-se mais uma vez pela retirada das forças castelhanas.

No Vale dos Perdigais a cavalaria e os restos da infantaria espanhola passaram a estar debaixo de um fogo intenso e continuado da artilharia portuguesa, então já posicionada nas encostas da Serra da Espargueira, da Serra Murada, Tejos e Monte Pelado, tornando praticamente impossível o escoamento da coluna de carros e carruagens espanholas para fora do campo de batalha, pela referida “estrada estreita e profunda”, sobretudo no apertado desfiladeiro entre o Montinho e o Monte Pelado, em direcção a Arronches.

Os espanhóis ficaram assim como que “engarrafados” no Vale dos Perdigais, com a agravante de que os 4,000 prisioneiros portugueses que seguiam na vanguarda desta coluna, ao verem esboçar-se a vitória a favor dos seus compatriotas a evolução da batalha, voltaram-se contra os espanhóis, retirando-lhes as armas que puderam e começando a combater contra eles.

A multidão de soldados e acompanhantes que vinham na retaguarda da coluna espanhola, e que pretendiam pôr-se a salvo, esbarravam com os que vinham da vanguarda, atropelando-se mutuamente.

Até descer a escuridão dessa noite, batalhou-se arduamente, tendo-se mais uma vez provado a valentia da infantaria e cavalaria portuguesa.

Com efeito, a cavalaria e a infantaria portuguesas atacaram ao longo dessa área a extensa coluna de carros e carruagens espanholas, que se movimentavam escoltadas por infantaria, mas sobretudo pela cavalaria espanhola.

Apenas com o raiar do sol do dia seguinte, foi possível ver toda a extensão deixada no terreno pela Batalha, tanto nos vales, como nos diferentes montes e colinas.

A vitória portuguesa foi esmagadora, tendo os espanhóis sido completamente desbaratados, deixando no campo 4,000 mortos, 2,500 feridos e 6,000 prisioneiros.

Foram apreendidos ao exército espanhol nomeadamente 18 canhões, 2,811 cavalos, 5,000 carruagens muitas delas com ouro e prata, 6,000 bois, 8,000 mulas, 6,000 granadas, 3,000 balas de artilharia, 2 coches de Príncipe e 25 coches particulares.

O exército português sofreu aproximadamente 1,000 mortos entre os portugueses, trezentos mortos entre os franceses e cinquenta mortos entre os ingleses.
 

Consequências da Batalha:

A Batalha do Ameixial foi fundamental para que Portugal se mantivesse como Portugal e tivesse chegado ao séc. XXI, como País independente. Com efeito, esta Batalha insere-se numa forte ofensiva espanhola, no sentido de conseguir retomar o País perdido.

O resultado desta Batalha teve importante significado e consequências para os dois lados. Para Portugal, a Batalha do Ameixial foi a mais importante vitória militar da Restauração, pois ela resolveu possivelmente a mais perigosa situação que Portugal enfrentou durante o período de 1640 a 1668.

A Batalha do Ameixial passou à história como uma das mais violentas e esforçadas, mas também das mais gloriosas nas Guerras da Restauração.

Para Espanha, esta Batalha contribuiu para que crescentemente alastrasse a convicção, nomeadamente na Corte e na nobreza espanhola, de que seria praticamente impossível a submissão de Portugal pelas armas, e que portanto seria inútil o prosseguimento da luta.

No plano internacional, a vitória portuguesa no Ameixial convenceu cada vez mais a França e a Inglaterra de que seria desejável o estabelecimento de um tratado de paz entre Portugal e Espanha.

É assim possível afirmar que com a inequívoca vitória portuguesa na Batalha do Ameixial, terminou uma das maiores ameaças à restauração da independência portuguesa e se abriu o caminho à existência de um País livre.


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