Facebook Sexta | 24 Março 2017
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Trancoso

Contexto político anterior à Batalha de Trancoso

Com a morte do rei D. Fernando em 1383, o Tratado de Salvaterra de Magos, celebrado em Abril desse ano entre a rainha D. Leonor Teles, o Conde João Andeiro e o Rei de Castela, estabelece que a Coroa Portuguesa passaria a pertencer aos descendentes do Rei de Castela, D. Juan I, passando a capital do Reino para Toledo. O Reino de Castela iria inevitavelmente dominar Portugal. A situação que se cria provoca mal estar e não agrada á maioria da população portuguesa.

Em face desta circunstância, a população de Lisboa proclama D. João, Mestre de Avis, meio irmão de D. Fernando, como "regedor, governador e defensor do reino". Perante a revolta da população portuguesa em vários pontos e cidades do Reino, o rei de Castela, em 1384, entra em Portugal, a pedido de D. Leonor Teles. Entre Fevereiro e Outubro monta um cerco a Lisboa, por terra e por mar, com o apoio da frota castelhana. O cerco não resulta, não só pela determinação das forças portuguesas, mas também por Lisboa estar bem murada e defendida.

Afastados momentaneamente os combates com Castela, o partido do Mestre avançou, então, para a batalha política. Reúnem-se assim em Março e Abril de 1385 as Cortes de Coimbra, que proclamam O Mestre de Avis como Rei de Portugal.

A partir de 1 de Junho de 1385, D. Juan I invade novamente Portugal, cercando Elvas. Daí ordena também uma incursão castelhana na Beira.


A incursão castelhana na Beira:

Os castelhanos deixam Ciudad Rodrigo dispostos a invadir a Beira, com o objectivo de saquear e de fazerem o maior dano possível, através da destruição de cearas e vinhas, aprisionando pessoas, praticando o saque e o incêndio.
Tinham a informação de que não encontrariam uma resistência organizada. Com efeito, sabiam que o Rei de Portugal, D. João I, e o seu condestável, D. Nuno Álvares Pereira, se encontravam ocupados no norte do País, envolvidos no cerco a Guimarães, pelo que não lhes iriam fazer frente. Em segundo lugar, sabiam que alguns dos nobres portugueses da Beira se encontravam desavindos entre si, pelo que não seria provável que se juntassem para se oporem a esta invasão.

Deste modo um exército castelhano deixa Ciudad Rodrigo, aproximadamente a 14 de Maio de 1385 e entra em Portugal. Nele participavam 400 cavaleiros, provenientes de famílias nobres castelhanas ou de burgueses abastados. Estes cavaleiros dispunham de fortes armaduras, bem como lanças e espadas, e podiam combater a pé ou a cavalo. Participavam também neste exército 200 ginetes ou cavaleiros ligeiros, armados de dardo e besta, que em batalha desempenhavam normalmente um papel de ataque aos flancos ou retaguarda do inimigo, e combatendo sempre a cavalo. Acompanhando os cavaleiros e ginetes vinham umas centenas de homens a pé, armados de picos, e besteiros.
Ao chegar a Viseu, o exército castelhano saqueou a cidade e fez centenas de prisioneiros, para serem levados para Castela. Seguidamente incendiou a cidade.


A reacção portuguesa:

A situação tornava-se escandalosa. Era preciso promover o entendimento entre os nobres da Beira, impedindo ao menos a saída do saque para Castela, e se possível assegurar o castigo dos invasores, já que não se tinha evitado a devastação desta região da Beira. D. João I, sabendo que não havia tempo a perder, encarrega o seu guarda-mor, João Fernandes Pacheco, de ir ao encontro dos fidalgos da Beira e de mediar as suas diferenças. Foi então conseguida uma reconciliação entre os nobres da Beira.


O desenrolar da Batalha:

Sabendo que os castelhano passariam por Trancoso, no seu regresso a Castela, os portugueses foram colocar-se a cerca de 2 Km a sul da vila, num local onde os castelhanos forçosamente teriam de passar. Tratava-se da veiga de Trancoso, perto da ermida de São Marcos.

O exército português era composto pelos homens de cinco nobres da Beira: Gonçalo Vasques Coutinho, Martim Vasques da Cunha, João Fernandes Pacheco, Gil Vasques da Cunha e Egas Coelho. Nele participavam pouco mais de 300 cavaleiros e pouco mais de 1.000 homens a pé, a grande maioria dos quais sem prática das armas. Não existiam ginetes nem besteiros.

Na manhã seguinte, a 29 de Maio de 1385, o exército português coloca-se no terreno sensivelmente como nos Atoleiros, ou como mais tarde em Aljubarrota, ou seja, com vanguarda, alas e retaguarda. Todos ou quase todos os cerca de 400 cavaleiros portugueses estavam na vanguarda. Os homens a pé colocaram-se nas duas alas e na retaguarda.

Tendo o caminho barrado, os castelhanos fizeram então uma proposta aos portugueses, que consistia em aceitar entregar o produto do saque, bem como libertar os prisioneiros portugueses, desde que a coluna castelhana pudesse prosseguir a marcha para Castela. Os portugueses recusaram.

João Rodrigues de Castanheda ordenou que os seus 400 cavaleiros desmontassem dos cavalos, que entregaram aos pagens, e que combatessem a pé. Apenas os ginetes iriam lutar a cavalo, muito possivelmente situados de cada um dos dois lados do exército castelhano. Alguns homens armados ficaram na retaguarda, de guarda aos prisioneiros portugueses.

O ataque castelhano incidiu sobre a vanguarda portuguesa e sobre as duas alas. O combate foi extraordinariamente violento, tendo demorado o dia inteiro. A Batalha de Trancoso foi portanto travada num espaço não muito grande, que corresponde á veiga de Trancoso, e durante aproximadamente oito horas.

Os portugueses, os cavaleiros castelhanos e os peões castelhanos combateram sempre a pé, ao contrário dos 200 ginetes castelhanos que procuraram lutar sempre a cavalo. É muito possível que os castelhanos tenham ensaiado, ao longo do dia, diversos ataques, depois de se terem reagrupado, utilizando simultaneamente a carga de cavalaria dos ginetes e o ataque dos homens de armas a pé, enquanto os besteiros castelhanos disparavam os seus virotões. Possivelmente o ataque dos ginetes incidiu mais sobre as alas portuguesas e a sua retaguarda, enquanto os homens de armas atacavam a pé a vanguarda portuguesa. Sabemos no entanto que no final do dia os castelhanos estavam totalmente desbaratados, e que muitos dos prisioneiros portugueses se conseguiram libertar e envolver no combate. A participação dos prisioneiros portugueses não deixou certamente de ser significativa, não só pelo seu número, mas também pelos motivos de hostilidade que tinham perante os castelhanos, devido á forma como haviam sido tratados.

Do lado castelhano, apenas alguns ginetes escaparam da morte, nestes se incluindo o seu capitão, Pedro Soares de Quinhones. Os cavaleiros castelhanos, que eram como referimos, de importantes famílias, morreram todos, com excepção de Garcia Guterres, que Gil Vasques da Cunha não quis matar, para que, como preso, pudesse identificar os cavaleiros castelhanos mortos e posteriormente contar em Castela o que havia sucedido nesta batalha.

Do lado português, e de acordo com os cronistas da época, o número de mortos foi muito menor.


Consequências da Batalha:

Em Portugal todos tinham consciência que se vivia, em 1385, um período decisivo na guerra com Castela. Com efeito, após as cortes de Coimbra que proclamaram D. João I como Rei de Portugal, e após os êxitos militares de 1384, a guerra com Castela entrava na sua fase decisiva. Esta nova vitória chegou assim num momento muito importante e teve como consequência transmitir um significativo entusiasmo e confiança aos defensores da independência de Portugal.

Em segundo lugar, esta vitória foi uma nova confirmação de que o exército de Castela não era invencível, apesar da sua superioridade numérica e em armamento. Estava provado que a coragem e determinação portuguesa podiam sobrepor-se a situações tremendamente desfavoráveis. Deste modo, o conhecimento da vitória em Trancoso contribuiu seguramente para incentivar os portugueses a enfrentarem a batalha decisiva, que se travou 77 dias mais tarde em Aljubarrota.

Em terceiro lugar o resultado de Trancoso teve uma consequência estratégica da maior importância, que consistiu em demover o Rei de Castela, a partir de Elvas, de continuar a sua marcha para Lisboa. Tinha então a intenção de seguir directamente para Lisboa, onde se encontrava já a sua frota. Este movimento seria feito em simultâneo com uma penetração na Beira por parte de outra força castelhana. Ao ter conhecimento da derrota castelhana em Trancoso, o Rei de Castela abandonou o cerco de Elvas, e desistiu de se dirigir directamente daí para Lisboa. Pelo contrário, retirou-se para Ciudad Rodrigo, em Castela, para reagrupar as suas forças. Esta circunstância, além de evitar dois ataques castelhanos simultâneos a Portugal, proporcionou ao exército de D. João I ganhar vários dias, que se haviam de revelar preciosos na preparação da batalha decisiva, a Batalha de Aljubarrota.


Documentos

A Batalha de Trancoso - versão desenvolvida

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